Nossa Opinião: Tragédia anunciada


PREZADOS OUVINTES,


Já se discutiu este tema, por diversas vezes, neste editorial, assim como em diversos seminários e simpósios. Mas, infelizmente, tem-se novamente de amargar a triste notícia da morte de mais de uma centena de pessoas, deixando para trás o sonho da vida feliz em família. A tragédia anunciada das enchentes, no Sul, no Sudeste, no Norte e no Nordeste, parece não abalar os sentimentos daqueles que governam o povo brasileiro.


Há décadas, se veem desastres anunciados, com o pobre morrendo ou perdendo seu casebre; crianças órfãs, idosos abandonados, barracos soterrados, vidas desfeitas. Não há quem se preocupe com uma solução eficaz e eficiente. Não há quem prometa e cumpra com soluções devidas. A Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Maceió, Recife, Riachuelo, Laranjeiras, Maruim, para citar apenas alguns casos, são frequentemente matéria de capa nos noticiários da mídia nacional ou local.


Há um frenesi em certos políticos, que se dirigem a esses locais, munidos de câmeras e manietados por marqueteiros, para pousarem de bons moços, de político comprometido, de quem vai enviar cestas básicas e colchões, agasalhos e remédios..., mas, no próximo ano, tudo se repete, sem qualquer atitude de quem tem a obrigação de cuidar do povo.


A mentalidade presente na ocupação do solo, na construção de moradias e na distribuição de espaços nas cidades, é a do mercado: quem tem dinheiro e poder, mora muito bem; que é pobre, mora mal, e quem é miserável, sem emprego, sem estudos, não mora, mas se abriga em barracos improvisados, com a aquiescência do poder público. Apenas quando as encostas desmoronam, a Administração Pública aparece para dar uma desculpa esfarrapada, apontando um volume acumulado de chuva acima da média. E quem disse que há volume de chuva razoável para quem se abriga sob marquises e em barracos de papelão e madeirite? Que volume seria normal, ou dentro da média, para quem é obrigado a morar em encostas ou à margem de córregos e de rios, por lhe negarem lugares melhores?


A Natureza sempre cobrou seu espaço, com uma severidade sem limites. Quando a ocupação do solo não segue uma lógica racional, planejada, sob a responsabilidade do ente público, a irresponsabilidade campeia e o lucro solapa a dignidade do ser humano. Depois, com a estampada falta de vergonha, aparecem os representantes das autoridades para reafirmarem: choveu demais... A culpa é da Natureza, já que foi uma desastre natura!


Seu doutor, vou lhe dizer: chover é bom e natural. O que é irracional e péssima é a sua atitude de proteger ricos e afortunados, perdoando-lhes tributos, para impor aos pobres a triste sina de viver onde não é humano. Anormal é a inércia dos administradores, nas três instâncias, diante dos abalos que os pobres, no Norte ou no Sul, vivem a cada ano. Anormal é olhar para o morro e vê-lo encaroçado de barracos, com gente que tem moradia pior do que os bichos.


Ah, Doutores... Não é culpa da natureza a sua preguiça de cuidar do seu povo, eleitores/cidadãos ávidos por melhorias, desejosos de moradia, mas não a têm, por conta da carestia! Sua indiferença é a causa de tanto sofrer. Sua insensibilidade tem causado maldade, impedido muita gente de viver.


Quem olha para o céu e o vê escuro de espessas nuvens, teme o futuro. Quem ver o riacho se avolumando, vai logo pensando: hoje não haverá sossego... bate-lhe o medo de não mais ver seus parentes... Doutores, renunciem a seus cargos, pois foi grande o estrago desse seu mal proceder. Com que cara e com que coragem, na próxima estiagem, os senhores desejam nos ver, estendendo-nos a mão, pedindo que, na eleição, possamos os eleger?


Cuidem de reorganizar a cidade, com políticas de verdade, para o bem comum. Do contrário, não é para ficar no poder, político algum, que passa quatro anos, com infelizes planos de assistir ao povo morrer, assim que chover.


ENQUANTO CAMPEAR A INDIFERENÇA DAS AUTORIDADES, QUE CULPAM A NATUREZA, HAVERÁ MORTES TRÁGICAS DE INOCENTES INDEFESOS. CHEGA DE IRRESPONSABILIDADE NA GESTÃO PÚBLICA



Essa é a Nossa Opinião



(veiculado no dia 03 de junho de 2022 durante o Programa “Linha Direta”)



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Foto: Exército Brasileiro