Nossa Opinião: editorial pede um basta a violência no Brasil

PREZADOS OUVINTES,



Que o Brasil é um país violento, isso já está consolidado, desde a colonização, quando se dizimavam índios, escravizam-se e matavam-se os negros cativos, sem qualquer escrúpulo. A mentalidade da colonização não foi abandonada, ao longo dos tempos. Após quinhentos anos, assistimos a ações truculentas, muitas das quais, com a maciça aprovação de boa parte dos brasileiros e de autoridades legítimas.


Quando se olha para a periferia das cidades, periferia da vida e da história real, percebe-se uma gama sem fim de pobres, miseráveis condenados à fome, ao desprezo de todos, sem escola, sem hospital, sem ocupação. As coroas de espinhos – as favelas – que cercam as cidades, mostram-nos o quanto ainda somos um país de violência contra a vida e a dignidade da pessoa. Há a ideia, que está muito presente na consciência de boa parte dos brasileiros, de que apenas umas famílias devem ter acesso aos bens, às ações do estado, às políticas públicas. Quanto mais acúmulo, melhor. Afinal, “o mundo é dos mais espertos”. “Bem aventurados os que têm ganância, porque deles é o reino do poder e do prestígio”.


A violência legítima e invisível – aquela que é praticada pela administração pública, quando deixa faltarem as condições básicas para que as pessoas tenham o mínimo possível, como saúde, educação, moradia, segurança, remuneração digna – só se torna visível quando há uma reação de grupos que vivem do crime, quando há mortes, chacinas e execuções sumárias. Notícias dão conta de carregamentos de drogas, de armas ilegais, de lavagem de dinheiro... a mesma fonte, porém, nem sempre revela a finalidade última dessas ações. Esses bandidos visíveis estão a serviço de quem? Quem está se dando bem com a manutenção da violência, sobretudo daquela que permite desvios de verbas da saúde, da educação, da assistência social, para os paraísos fiscais, para as mansões e para os destinos luxuosos de primeiro mundo?


Pois bem, as pessoas que contribuem para o crescimento da violência praticada pela inoperância do estado são as mesmas que incentivam ações truculentas de policiais despreparados, que provocam Pânico, terror e mortes...muitas mortes, como no caso de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, nesta semana. Muitas vezes, a ordem é matar, pois paira a ideia de que bandido bom é bandido morto. Indiretamente, essa ideia é a legitimação da pena de morte, da lei do Talião, em que o dente por dente e o olho por olho deve retomar seu espaço na punição pelos crimes cometidos.


Mas, atenção! Essa ideia só é válida quando os bandidos são os das favelas. Para os que, eventualmente, usam paletó e gravata e tomam decisões políticas, essa ideia não pode prosperar. Pobres, favelados, sem acesso às universidades, sem direito a uma moradia, digna e sem qualquer preparo técnico para um emprego decente, se morrerem ou não, fazem pouca diferença! Mas os donos do poder.... de modo algum....


Aqui está a razão última de legitimação da recorrente legalização de armas, do incentivo à compra de armas, da incitação à violência. E quando vozes se levantam em contrário devem ser caladas, como Marielle Franco, Chico Mendes, Irmã Dorothy e tantas outras que tombaram por defenderem A VIDA dos pobres.


A briosa Polícia Militar, que tem papel fundamental na defesa da cidadania, não pode se manchar por intervenções desumanas, como a de São Gonçalo. O confronto armado já deu sinal de que não parece ser a melhor saída. Da mesma forma como as conjecturas políticas que permitem acordos entre adversários históricos, sem balas e sem canhões, o diálogo, nas favelas, ruas e praças, será sempre um excelente meio de diminuir a violência. Abaixo a pena de morte; abaixo a violência, nas favelas! Abaixo a truculência praticada pela Administração Pública, quando desvia verbas e deixa faltar o essencial. Abaixo a ideia de constante vingança. Que tudo isso possa dar lugar a uma nova cultura, a do respeito, do diálogo e do serviço à vida. Chega de violência e de mortes. Não podemos legitimar os matadouros humanos.


Essa é a nossa opinião.