“Nossa Opinião”: A miséria é fabricada


Prezados ouvintes,


Há muitos anos, convive-se com o descaso das autoridades, no quesito saneamento básico, saúde, habitação, educação e emprego. Mergulhado num caos político, em que a ação de muitos agentes públicos se confunde com “arrumação” da vida particular e de quem os ajudou em faraônicas campanhas, o Brasil, com seus estados e municípios, assiste à construção institucionalizada da miséria de seus pobres e marginalizados.


Desde janeiro do corrente, assistem-se às chamadas catástrofes naturais, como a estiagem e as enchentes, no Norte, do Sul, no Sudeste e no Nordeste do País. Mais recentemente, Alagoas e Pernambuco viveram dias de terríveis atrocidades, verdadeira calamidade, que, a cada ano, se repete irremediavelmente, porque faltam verbas para o cuidado com o leito dos rios e dos córregos, para a retirada dos pobres das encostas dos morros. Falta verba para o problema da moradia no Brasil.


Estes mesmos administradores, que mantêm acesa a cantilena da falta de recursos, basta se avizinhar os dias do são João, e anunciam bandas e cantores famosos, cujos cachês são verdadeiros tapas na face da cidadania. E o pior é que os atingidos pelas enchentes estão lá, na primeira fila, agitando-se com barulho semelhante a música e com uma mistura de palavras com pornografia, ao que apelidam de letra e de ritmo musical. A cultura Nordestina do autêntico forró, com suas derivações como xaxado, xote e baião, está sendo destruída, com o patrocínio de verbas públicas que faltarão ao fim a que se destinariam.


Faz bem, sobretudo em ano de eleição, anunciar shows com famosos caros, midiáticos, que nunca deixam na região. Sabe-se que estes eventos são pagos antecipadamente, sob pena de não acontecerem. Mas, a casa de Zé Ninguém, que foi levada pelas enchentes, a ponte que liga municípios, o posto médico que desabou, a caixa d’água que caiu e o aparelho de quimioterapia não encontram verbas o suficiente...

Gerir a máquina pública se torna, cada vez mais, uma fábrica de miséria. É bonito, dá voto e garante a estada no poder pela vida afora, um pedido de cimento e bloco, de colchão e dentadura, um litro de gasolina, uma quartinha de gás GLP, uma lâmpada, um esparadrapo, um pacote de gaze, para o curativo do menino que teve o pé comido pelo rato.... como é bom esse doutor, filho do Dr. Fulano de Tal, que nos governa desde a década de cinquenta o século passado! Homem bom! Dá festa todos os anos. E o pobrezinho ainda acompanha os enterros coletivos, quando tem muita chuva... que homem santo!


Ah! E se alguém se levantar contra tudo isso morre, como morreram Chico Mendes, Irmã Dorothy, Tom Philips e Bruno Pereira, para citar apenas alguns. Morrem, porque são se calam diante das injustiças que constroem nossa miséria. Morrem, porque a ganância dá às mãos ao ódio e ao medo de perder os privilégios. Privilégio! Palavra mágica que atua como combustível na frenética dança da miserabilidade humana!


Enquanto essa mentalidade arcaica imperar, o Brasil continuará a assistir à fabricação da miséria a céu aberto e, todos os anos, no carnaval e no São João, o povo vai continuar dançando sem parar, até que a enchente o leve para nunca mais voltar.



Essa é a nossa Opinião.



(Veiculado no dia 1° de julho de 2022 dentro do Programa “Linha Direta”)


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Foto: Brasil 245/divulgação