Editorial "Nossa Opinião": Ensino em casa


PREZADOS OUVINTES,



Está em debate, no Congresso Nacional, o projeto de lei que regulamentará a Educação domiciliar, uma alternativa à prática tradicional. Na modalidade de educação domiciliar, ou escola em casa, os pais escolhem o que os filhos deverão aprender, e com quem deverão aprender: se com os próprios pais ou com professores/tutores escolhidos a dedo, a fim de se manter uma educação fiel aos costumes dos pais.


Os defensores desta modalidade asseguram que se economiza tempo, que muitas crianças juntas, numa sala de aula acabam sendo empecílio ao desenvolvimento de alguns que têm maior facilidade de aprender; que a socialização não acontece somente na escola, mas na escola futebol, na academia, no cinema e em outras expressões de lazer; que a educação domiciliar permite aos pais repassar aos filhos apenas o que é bom, como sua religião, seu posicionamento político, sua visão de mundo, evitando contraposições desleais.


Ora, durante a pandemia, muitas crianças viveram a experiência de ficar em casa, e o resultado foi catastrófico: em muitas escolas, surgem casos de doenças psiquiátricas, problemas de ansiedade, traumas provocados pelo tempo em que ficaram em casa. A escola se mostrou extremamente necessária, até para servir de contraponto ao ambiente familiar. Se a base nacional comum curricular, que impõe uma proposta única a todos, de Norte a Sul e de Leste a Oeste, está precisando de ajustes e de adaptações, que sejam feitos.


Não é possível que o Brasil não tenha aprendido com os seus grandes pedagogos, como ANÍSIO TEIXEIRA, DARCY RIBEIRO, PAULO FREIRE, MARIA NILDE MASCELLANI, FLORESTAN FERNANDES, MIGUEL ARROYO, JAQUELINE MOLL, para citar os principais luminares, dentre eles figurando o pernambucano PAULO FREIRE, a quem o país deve demaisamente muito. Estes homens e mulheres, embora tivessem outras profissões e áreas de pesquisa, dedicaram-se à educação, e todos defenderam uma escola integrada à comunidade, aos costumes, apesar de mentalidades diferentes que tiveram.


O projeto em questão é uma amostra de que alguns querem copiar os Estados Unidos da América, no que tange à educação. Lá, muitos pais e mães têm condições de ensinar seus filhos, porque aprenderam. Mas, nada substitui a escola, sobretudo aqui no Brasil, onde o nível intelectual e ético das famílias é muito desconcertante. O projeto é uma modalidade disfarçada de sucateamento da profissão do educador, que deixando a escola, passará a ser uma marionete nas mãos de quem pode lhe dar uma “moeda” ou um prato de comida, para operacionalizar divisões entre ricos e pobres; entre pesamentos políticos diferentes; entre posturas religiosas rigoristas e fundamentalistas. Seria um caos total.


Quem defende que a escola é um empecilio ao pensamento dos pais, esquece-se de que os filhos não têm de pensar como os pais. Cada um é livre para enfrentar a vida do modo como concebe. Proibir o diferente, ou desprezar o outro, porque leva mais tempo para aprender, já é um mal sem tamanho. A socialização vai se comprometer, sim, porque, sem o contraponto, não se aprende a discutir ideias diferentes, de forma democrática. Se a escola pode acontecer em casa, os pobres, que não têm casa, nem como pagar professores particulares, terão seus filhos eternamente escravos de quem pode financiar a escola em casa?


Essa ideia é uma forma de minimizar os custos com a educação, fortalecendo ainda mais o abismo entre pobres e ricos, entre ideologias diferentes, para que impere sempre a força de quem tem dinheiro sobre quem nada tem. Será que o pensamento de todos os pais e mães é o melhor para o futuro dos seus filhos? Como explicar, então, o crime organizado, o sucateamento na gestão pública, o uso da religião para a subida ao poder e a manipulação do nome de Deus para justificar certos cargos e desonestas barganhas, como a barra de ouro e a bíblia em troca de projetos educacionais?


A escola pode não estar bem. Fortalecê-la e reformá-la é uma possibilidade, mas deixar a criança no seio familiar, sem a participação no ambiente comum da escola, é fabricar monstros e não pessoas.



Essa é a nossa opinião.



(Editorial veiculado no “Linha Direta” de 20 de maio de 2022)



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Foto: Agência Brasil